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espirro agudo do ar comprimido — aquele som metálico e breve que antecede o abrir das portas — cortou o silêncio do ônibus e fez Luciana despertar num sobressalto. Um estalo, uma piscada fora de ritmo, e o mundo pareceu demorar um segundo para voltar a se encaixar.
Piscou duas vezes, tentando lembrar onde estava. O vidro frio sob a lateral do rosto, a penumbra da iluminação pública que riscava sombras sobre o corredor estreito, o cheiro de desinfetante misturado ao suor das últimas horas de expediente... tudo foi voltando em camadas, até que a lembrança do hospital e do turno de doze horas caiu sobre ela como um cobertor pesado.
Do lado de fora, o asfalto corria molhado e escuro. Dentro, restavam poucos passageiros; figuras anônimas encolhidas em seus assentos, cada um voltando para o próprio inferno doméstico. Luciana apertou o zíper da bolsa preta e a puxou para o colo, percebendo que ela quase escorregava para o chão. Olhou o relógio de pulso: 23h35. A hora dos sonolentos, dos bêbados e dos fantasmas.
O coração ainda batia em um ritmo torto, como se o corpo não tivesse entendido que estava desperto. Ela suspirou, massageando o pescoço dolorido. O músculo estava rígido, consequência da tensão acumulada nos últimos dias e da posição desajeitada em que dormira. “Preciso de férias”, pensou, sabendo que ainda faltavam três meses para isso.
Lá fora, o mundo era uma sequência de manchas escuras intercaladas por breves clarões laranja. A janela refletia sua própria imagem, pálida, cansada, com olheiras fundas. A lembrança do calor do edredom — aquele edredom de algodão que ela tanto amava — ainda pairava na pele, como um eco de conforto interrompido.
Foi quando percebeu.
A rua que corria do lado de fora... não era familiar.
Luciana piscou, inclinando-se para o vidro. Acelerou o raciocínio: “hospital... avenida principal... três pontos...”. E então, o estômago apertou. Ela havia passado do ponto. Três paradas além de casa.
— Merda... — murmurou, com os dentes cerrados.
Levantou-se num impulso. O movimento foi rápido demais; o crachá pendurado no jaleco escorregou do bolso e caiu no chão. Ao mesmo tempo, ela puxou a corda do sinal, o estalo do metal foi seguido pelo som seco dos freios, o ônibus sacudindo.
Luciana se apoiou nos ferros, tentando recuperar o equilíbrio, e abaixou-se para pegar o crachá. Mas outra mão já o fazia.
Foi um instante que pareceu durar mais do que devia.
Aquela mão não era qualquer mão. Era grande demais, ossuda, encardida, de pele espessa como couro de trabalhador braçal. As unhas, longas e amareladas, tinham as bordas escuras, sujas. Luciana sentiu uma pontada de repulsa, o estômago virando.
Levantou os olhos.
O homem que segurava seu crachá vestia um blusão marrom com capuz, o tecido gasto, sujo, o capuz puxado até cobrir o rosto. O ônibus estava quase vazio, e o sujeito parecia ter surgido do nada, como se não estivesse ali um segundo antes.
Ele levantou o crachá na altura dos próprios olhos, observando-o com uma curiosidade quase infantil.
Luciana ia agradecer, num reflexo de educação automática, mas a voz morreu na garganta quando ele falou.
— Lu... cia... naaaa...
O som era rouco, arranhado. Uma voz de garganta doente, fumante há décadas, saindo em sussurros entrecortados. Mesmo com o barulho do motor, ela ouviu o nome como se tivesse sido sussurrado dentro de seu ouvido.
Ela arrancou o crachá das mãos dele, sem agradecer, e desceu apressada pela escada do ônibus. O ar frio da noite bateu em cheio no rosto, cortante, fazendo-a se encolher e cruzar os braços sobre o peito.
“Não fala com mendigo”, lembrou. “Eles nunca pedem só uma esmola.”
As portas se fecharam atrás dela com um chiado final, e o veículo se afastou, deixando Luciana sozinha na calçada.
O vento trazia um cheiro de ferro e folhas secas. O céu estava limpo, mas a lua parecia apagada, um olho de vidro suspenso sobre a cidade. Ela praguejou mentalmente por ter esquecido o casaco no armário do hospital. O frio do fim de outubro sabia ser cruel, principalmente quando vinha junto da solidão.
As luzes dos postes piscavam em intervalos irregulares, como se o bairro inteiro estivesse respirando em uma frequência errada.
Ela olhou para os dois lados da rua. Nenhuma alma viva. Nem um carro, nem um cachorro. Só o som de suas próprias botas contra o asfalto.
A culpa veio logo em seguida: “Por que cochilar, droga? Só mais dez minutos e estaria em casa.” O cérebro tentava racionalizar o medo, mas o corpo... o corpo já sabia que havia algo errado naquela noite.
As folhas estalavam sob seus passos. O vento sussurrava entre os galhos secos. Luciana apertou o passo, a respiração se condensando em nuvens diante do rosto.
À frente, a rua descia em uma ladeira longa, de onde se podia ver boa parte do bairro; uma paisagem de telhados escuros e postes espaçados demais. O problema era o trecho seguinte: terrenos baldios, casas abandonadas, sombras demais para alguém andando sozinha perto da meia-noite. Ainda mais em uma noite do "dias das bruxas", lembrou.
Ela conhecia aquela área. E sabia da fama. Roubos, estupros, desaparecimentos. Histórias de gente que entrou e nunca mais voltou. Boatos, diziam. “Mas todo boato tem um grão de verdade”, lembrava a voz de sua avó, falecida há anos.
Luciana riu de si mesma, um som curto, nervoso. “Você é cética, lembra? Médica. Enfermeira. Tudo tem explicação.”
Mesmo assim, ao dobrar a esquina e ver a casa — aquela casa — o riso morreu antes de chegar à boca.
Era uma estrutura antiga, dois andares, janelas altas e paredes encardidas pelo tempo. As árvores que a cercavam projetavam sombras longas, e o vento fazia as folhas mortas rodopiarem diante do portão de ferro.
Ela sempre ouvira falar dela. A casa dos fantasmas. A casa do homem enforcado.
Lendas urbanas, ela dizia. Até agora.
Do lado esquerdo, uma luz fraca tremulava atrás de uma das janelas. Um brilho amarelado, como o de uma vela. O tipo de luz que não devia estar acesa em uma casa morta.
Luciana ficou parada. Havia algo hipnótico naquele brilho. O frio cortava suas mãos, mas ela não conseguia se mover.
E então, como se algo invisível a puxasse, deu um passo. Depois outro.
A rua estava silenciosa. As janelas das casas vizinhas pareciam cegas.
Mais um passo.
Foi o toque do celular que quebrou o transe. O som familiar vibrou em sua bolsa, alto demais naquele vazio.
Ela respirou fundo, trêmula, e atendeu.
— Filha? — A voz da mãe, do outro lado, saiu abafada pelo chiado da ligação.
— Você ainda não chegou em casa?
— Mãe... — Luciana suspirou de alívio. — Desci no ponto errado. Já tô indo, tá?
— Cuidado com esse frio, menina. — O tom materno, sempre o mesmo. — Cuidado pra não morrer congelada.
Luciana riu, nervosa. — Pode deixar.
— E cuidado também pra não perder seu crachá...
Luciana parou. A rua pareceu encolher à sua volta.
— O quê? — ela perguntou, a voz mais baixa. — Como assim perder o crachá?
Silêncio.
Ela afastou o telefone, olhou a tela: a ligação ainda estava ativa. Voltou o aparelho ao ouvido.
— Mãe? Tá me ouvindo?
O som que veio em resposta não era o da mãe. Era uma voz rouca, espremida, vinda de um lugar que parecia estar muito mais perto do que o outro lado da linha.
— Lu... cia... naaaa...
Luciana desligou o celular com um estalo, o coração disparado. Guardou o aparelho na bolsa, tentando respirar fundo. “Foi interferência. Só isso. Coincidência.”
Mas, ao levantar os olhos para a casa, viu a figura parada diante dela.
A blusa marrom. O capuz.
O mendigo do ônibus.
E, por um instante que pareceu eterno, ele apenas ficou lá, imóvel, observando.
Luciana virou e correu.
Correu como há muito tempo não fazia, as botas batendo no asfalto, a respiração falhando, o ar frio cortando os pulmões. Olhava para trás a cada poucos segundos, convencida de que veria o vulto se aproximando. Mas não viu.
Quando chegou ao seu bairro, as pernas tremiam, mas o homem havia sumido.
Ou talvez nunca tivesse estado lá.
A chave girou duas vezes no trinco antes de ceder. Luciana empurrou a porta com o ombro, tropeçando levemente no tapete da entrada.
A luz da sala estava apagada. O ar, frio e parado. A casa parecia diferente, não em aparência, mas em atmosfera, como se um estranho tivesse passado por ali e rearrumado o ar.
Fechou a porta com um empurrão. O som do clique metálico ecoou pela sala como um pequeno trovão doméstico.
Tirou o jaleco, jogou-o sobre o encosto do sofá e ficou parada, respirando fundo. As mãos ainda tremiam levemente. O coração não havia desacelerado.
Foi até a cozinha, acendeu a luz. O piso claro, as xícaras no escorredor, o prato sujo da manhã, tudo no lugar de sempre.
Mesmo assim, algo parecia fora de lugar. Um cheiro leve de mofo, talvez. Ou a sensação de estar sendo observada.
Ela pegou um copo, encheu com água da torneira e bebeu de um só gole. A água desceu fria, áspera, quase cortante.
Deixou o copo na pia e apoiou as duas mãos sobre o mármore, olhando para o chão.
Tentou rir da própria paranoia. “Um mendigo doido, uma ligação com interferência em uma noite de Halloween e pronto, já acho que tem demônio me seguindo.”
Mas o corpo ainda não acreditava.
O corpo sempre sabe antes da mente.
Luciana foi até o quarto. Tirou as botas, a calça jeans, e deixou tudo empilhado aos pés da cama. Acendeu o abajur, que lançou uma luz amarelada sobre o lençol. Pegou o celular, ainda com a tela preta, e o jogou sobre o criado-mudo.
Por um instante, pensou em ligar para a mãe.
Mas que explicação daria? “Oi, mãe, uma voz estranha me ligou no meio da rua e me chamou pelo nome como se estivesse dentro da minha cabeça?”
Melhor não.
Deitou-se. O corpo relaxou contra o colchão, os músculos finalmente cedendo. O som distante de um cachorro latindo ajudava a dar ao mundo um ar de normalidade.
Fechou os olhos.
O sono veio rápido. Quase rápido demais.
Primeiro, um zumbido. Um som fino, elétrico, como o de um transformador falhando. Depois, o escuro foi tomando forma.
Uma parede branca. Uma lâmpada piscando.
E um espelho. Luciana estava em pé, diante do espelho, embora soubesse — com uma clareza impossível — que ainda estava deitada na cama.
O reflexo era o dela, mas com pequenos erros. O cabelo caía de um jeito diferente. O rosto parecia... mais magro. Os olhos, mais fundos. E havia algo nas mãos, algo escuro, viscoso, escorrendo pelos dedos.
Tentou se afastar, mas o corpo não se movia.
No reflexo, sua boca se abriu, e o que saiu não foi a voz dela. Foi um som de outro lugar.
— Lu... cia... naaaa...
Ela acordou com um grito.
O corpo inteiro suado. A luz do abajur ainda acesa. O relógio marcava 03h19.
Ficou sentada por um tempo, tentando convencer o coração a voltar ao ritmo. O quarto estava em silêncio.
Mas o silêncio tinha textura. Uma espessura úmida, como se o ar estivesse cheio de algo invisível.
O som veio logo em seguida.
Um ping suave, metálico, vindo do banheiro. Depois outro. Água pingando.
Luciana levantou-se, ainda tonta, e foi até lá.
A luz do banheiro estava acesa; ela tinha certeza de tê-la apagado antes de dormir.
Empurrou a porta devagar. O espelho acima da pia estava embaçado, como se alguém tivesse acabado de tomar banho. Mas o chão estava seco.
Aproximou-se. A lâmpada tremia, oscilando entre claro e escuro.
Esfregou o vapor com a palma da mão.
O reflexo olhou de volta.
Por um segundo, tudo pareceu normal. Mas então, o reflexo sorriu.
Ela não.
O sorriso era errado.
Lento, largo, exagerado, como o de alguém que não entende como um sorriso deve funcionar.
Luciana deu um passo para trás, o coração disparando. O reflexo continuou sorrindo.
E então, bem devagar, ergueu o braço direito e apontou para algo atrás dela.
Luciana girou o corpo, o movimento travado pela vertigem.
Nada.
O banheiro vazio, a toalha pendurada, o vidro da janela entreaberto.
Quando olhou novamente para o espelho, o reflexo não estava mais lá.
A superfície refletia apenas o banheiro, e o espaço onde ela deveria estar.
A respiração veio em soluços. Ela recuou até encostar na parede oposta.
“Isso é sonho. Isso é sonho, Luciana.”
Mas o frio do azulejo contra as costas dizia o contrário.
Voltou ao quarto cambaleando, trancou a porta e se encolheu na cama. Ficou acordada até o primeiro sinal de luz entrar pela fresta da janela.
E quando finalmente dormiu, o celular vibrou novamente na mesa de cabeceira.
A tela piscava: MÃE.
Luciana não atendeu.
Mas a voz veio mesmo assim, saindo do viva-voz, sem que ela o tivesse ativado.
— Filha...
Silêncio.
E depois, a mesma voz rouca.
— Lu... cia... naaaa...
O celular caiu no chão, e a tela apagou.
O domingo amanheceu com um céu branco, pesado, o tipo de luz que não aquece nada.
Luciana se arrastou até a cozinha, os olhos vermelhos, a cabeça latejando. A chaleira apitou, e ela despejou a água sobre o café instantâneo sem sequer olhar.
O cheiro era forte demais, metálico. Tudo parecia forte demais: a luz, os sons, o gosto.
Sentou-se à mesa com o celular nas mãos. A tela ainda apagada.
Tentou ligá-lo.
Nada.





O
Sem bateria.
Ligou na tomada. O visor acendeu por um segundo, piscou, e morreu de novo.
Um arrepio percorreu sua espinha. O mesmo arrepio que se tem quando algo está fora do lugar, mesmo que você ainda não saiba o quê.
Lembrou da voz da noite anterior — não, daquelas vozes. A da mãe, a outra.
O nome arrastado como um suspiro.
“Lu... cia... naaaa...”
O som ainda ecoava em algum canto do cérebro.
Saiu para o quintal tentando respirar ar fresco. O sol começava a abrir uma brecha entre as nuvens, iluminando o gramado úmido.
Mas algo estava errado ali também.
O portão dos fundos, que sempre ficava trancado, estava aberto.
Luciana parou. O vento empurrava as dobradiças, e o rangido produzia um som longo, rouco, quase humano. Um som de garganta doente.
Ela olhou para o portão, depois para a rua deserta além dele.
Deveria fechá-lo. Simplesmente andar até lá e fechá-lo.
Mas o corpo não obedecia.
Sentia um peso nos pés, como se o chão a quisesse manter ali.
De repente, o ar mudou.
O cheiro, antes de grama molhada, foi tomado por outro, mais denso.
Um cheiro de fumaça e ferro, lembrando hospital e sangue velho.
Luciana recuou, a mão tampando o nariz.
O som veio em seguida: um estalo elétrico, seco, como o de uma lâmpada queimando.
E então, o barulho do portão batendo — uma, duas, três vezes — antes de se abrir por completo.
Do outro lado da rua, na curva da ladeira, ela viu algo.
A casa.
Não deveria ser possível vê-la dali. Havia prédios, árvores, esquinas entre uma e outra. Mas lá estava, recortada contra o céu pálido, com suas janelas cegas e o portão de ferro entreaberto.
Luciana sentiu o corpo gelar.
— Não... — murmurou, quase sem voz.
Deu um passo para trás.
Mas quando piscou, a casa parecia mais próxima.
Outra piscada, e o portão já estava diante dela, a pintura descascada, o ferro frio.
O coração batia como uma sirene dentro do peito.
Ela tentou se convencer de que estava sonhando, mas o frio do metal sob as pontas dos dedos provava o contrário.
O portão rangeu ao toque, abrindo-se sem resistência.
O jardim era um tapete de folhas mortas. O ar ali dentro tinha outro peso, outro tempo. O vento parecia parar na soleira, como se respeitasse aquele limite.
Luciana deu três passos. O som das folhas sob seus pés soou alto demais, como se cada passo fosse observado.
Lembrou das histórias de dias das bruxas que se espalhavam pelo pátio do colégio quando era mais nova: do homem enforcado, da mulher que ouvia vozes no porão, da criança que desapareceu sem deixar rastros.
Lembrou da avó dizendo que certas casas não querem ser esquecidas. Elas chamam.
O ar parecia pulsar, vibrar com algo vivo.
Luciana olhou para as janelas. Nenhum movimento. Nenhum som.
Mesmo assim, sentia que alguém — ou algo — estava ali, de pé, do outro lado do vidro.
De repente, o celular vibrou no bolso.
Ela o tirou devagar, as mãos tremendo. A tela, rachada, acendeu por um instante.
Um número desconhecido.
Atendeu.
O som que veio era o de respiração. Lenta. Profunda.
Depois, um leve arranhar, como de unhas contra madeira.
Luciana quase desligou. Mas a voz veio antes.
— Você voltou...
Era uma voz feminina desta vez. Quase um sussurro.
Mas havia algo de familiar. Um timbre que fazia o corpo dela reagir antes da mente.
— Quem tá falando? — perguntou.
Silêncio.
Depois, um riso baixo, triste.
— Eu também trabalhava no hospital... lembra?
Luciana congelou.
— O quê...?
— A gente revezava o plantão da noite. Eu saí... e nunca cheguei em casa. Eu cochilei no ônibus.
O som se transformou em ruído. A linha morreu.
Luciana ficou ali, parada no meio do jardim, o celular morto na mão, o vento mexendo seu cabelo.
A mente tentava entender, mas o corpo já sabia.
Ela não estava sozinha.
Nunca estivera.
Do segundo andar da casa, uma janela se abriu sozinha, lenta, rangendo como se tossisse.
E algo — uma sombra, um vulto de forma humana — inclinou-se para fora, observando-a.
Por um instante, Luciana pensou ver o brilho de olhos.
Olhos fundos, doentes, fixos nela.
O vento cessou. O silêncio se fez pesado.
E então, a voz, não vinda do celular, nem de dentro da casa, mas de dentro dela, repetiu:
— Lu... cia... naaaa...
Ela correu.
Não sabia para onde. As pernas se moviam por instinto, os pulmões ardendo.
Atrás, o portão se fechou com um estrondo metálico, e o som ecoou pela rua como um trovão.
Luciana só parou quando chegou à esquina.
O coração ainda martelava. A casa havia desaparecido.
Mas o ar...
O ar ainda tinha o cheiro de ferro.

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Na segunda-feira, Luciana voltou ao hospital.
O crachá pendurado no pescoço balançava a cada passo, batendo contra o peito como um pequeno pêndulo. Ela o havia encontrado na manhã anterior, sobre a mesa da cozinha.
Não lembrava de tê-lo deixado lá.
O prédio cheirava a álcool e café velho. As paredes do corredor principal, sempre brancas, pareciam mais amareladas sob a luz fria dos tubos fluorescentes. O som dos passos ecoava de um jeito estranho, como se as paredes estivessem um pouco mais distantes do que deveriam.
— Bom dia, Lu. — A voz familiar da colega de turno, Camila, veio de trás. — Tá com uma cara péssima, hein. Dormiu?
Luciana sorriu de canto. — Mais ou menos.
Camila riu, distraída, e foi adiante.
Luciana ficou observando-a desaparecer por trás da porta de medicação.
Algo no ar parecia... deslocado. Como se o hospital — aquele mesmo hospital em que ela trabalhava havia anos — fosse uma cópia imperfeita do original.
No refeitório, sentou-se diante do café preto e do pão amanhecido. O rádio tocava uma música velha, arranhada. A letra falava de estradas e despedidas.
Luciana olhou para o vidro da janela. Lá fora, o céu era o mesmo da noite anterior: um branco sujo, sem horizonte.
Ela passou a mão no bolso.
O celular, desligado desde o dia da ligação, agora estava com a bateria cheia. Sem que ela o tivesse carregado.
Ligou.
A tela brilhou, e por um instante o reflexo do próprio rosto apareceu, distorcido.
Depois, uma notificação: 1 mensagem de voz.
O dedo dela hesitou sobre o botão.
Pressionou.
Um chiado. Depois, a respiração pesada.
E uma voz feminina.
— Você viu, não viu? — dizia. — A casa não esquece. Ela escolhe.
Luciana parou de respirar.
O som ao fundo parecia o vento batendo em uma janela.
Depois, outro ruído: o rangido de correntes.
E a mesma voz, mais baixa:
— Você precisa voltar.
O áudio terminou.
Luciana ficou imóvel, o telefone ainda na mão, o sangue latejando nas têmporas.
Olhou ao redor. O refeitório estava vazio. Nenhum som além do zumbido das lâmpadas.
Mas, por um segundo, teve certeza de que o rádio — aquele que tocava a música de estrada — sussurrou o seu nome entre os versos.
No final do turno, já anoitecendo, Luciana saiu pela porta lateral do hospital.
O vento estava frio, e o céu, de um cinza quase lilás.
Acendeu um cigarro, algo que não fazia há meses, e ficou ali, olhando para o estacionamento vazio.
As luzes dos postes acendiam-se uma a uma, num ritmo descompassado.
Um gato atravessou correndo, desaparecendo atrás das ambulâncias.
Luciana tragou fundo. O gosto do fumo a fez tossir.
— Desculpa — murmurou para si mesma, e jogou o cigarro fora.
Deu dois passos em direção ao portão e parou.
O barulho.
Vindo de algum ponto do outro lado da rua: um tec tec tec repetido, como unhas batendo no asfalto.
Luciana se virou. A rua estava vazia.
Mas o som continuava, aproximando-se, compassado.
Ela recuou.
O coração subiu para a garganta.
Do meio da neblina que começava a se formar, algo surgiu.
Um vulto.
Marrom.
O mesmo capuz.
A mesma postura encurvada.
Luciana congelou.
A figura caminhava devagar, arrastando os pés, a cabeça levemente inclinada para o lado.
— Não... — ela sussurrou. — Isso não é real.
O vulto parou a poucos metros.
Mesmo com o rosto coberto, ela sentiu o olhar.
E então, ele ergueu o braço. A mão — aquela mesma mão ossuda, suja, com unhas longas — apontou para o crachá pendurado em seu peito.
Luciana olhou para baixo.
O crachá estava manchado.
Um líquido escuro escorria pelo plástico transparente.
Ela tocou. Era quente. Sangue.
Quando ergueu os olhos novamente, o vulto havia desaparecido.
Naquela noite, ela não conseguiu dormir.
Ficou sentada no sofá, o crachá sobre a mesa, o olhar fixo na mancha vermelha.
Tentou limpar. O pano saiu sujo, mas o crachá permanecia manchado, como se o sangue viesse de dentro do plástico, e não de fora.
Lá fora, o vento uivava entre as árvores.
E entre as rajadas, ela jurava ouvir o som de passos no quintal.
Pegou o celular. Sem sinal.
E então, a televisão ligou sozinha.
O chiado branco encheu a sala. O som elétrico, ensurdecedor.
Luciana avançou e desligou o aparelho, mas a tela permaneceu acesa, agora mostrando uma imagem.
A casa.
A mesma da colina.
Com a janela aberta.
E uma sombra na janela, imóvel.
A voz, vinda do alto-falante da TV, era quase um sussurro:
— Você precisa voltar, Luciana.
Ela recuou até encostar na parede.
O corpo todo tremia.
E então, o telefone da sala tocou. O som ecoou alto demais. Uma, duas, três vezes.
Luciana deixou a TV ligada e foi até o aparelho, cada passo um esforço.
Atendeu. Silêncio. Depois, a respiração.
E então, a voz — rouca, masculina desta vez — murmurou:
— Você esqueceu o que prometeu.
Luciana fechou os olhos. — Eu não prometi nada.
Silêncio.
— Prometeu sim... — disse a voz. — Lá, antes de dormir.
O coração dela parou por um segundo.
Antes de dormir. No sonho. No espelho.
A ligação caiu.
E quando ela olhou para a tela do telefone, o visor mostrava o mesmo número que aparecera no celular.
O número desconhecido.
Mas agora, algo a mais.
Um nome.
"Luciana Souza — 1987–2018"
Ela deixou o telefone cair e recuou, o corpo gelado.
O som da TV continuava no fundo, chiando, misturado a sussurros.
E na tela, o vulto da janela parecia sorrir.
A noite seguinte chegou sem que Luciana percebesse.
O tempo havia perdido forma.
O relógio da parede estava parado em 23h35 — o mesmo horário em que ela acordara no ônibus dias antes.
Ela ficou olhando o ponteiro imóvel, ouvindo o som do próprio coração.
Do lado de fora, o vento parecia respirar, ora mais forte, ora mais suave, como se sua casa estivesse viva.
No sofá, o crachá continuava ali.
A mancha de sangue agora era mais escura, quase preta.
Luciana pegou o objeto com cuidado, como quem segura um bicho morto. O plástico estava quente. E pulsava.
De repente, o telefone tocou novamente. Ela olhou para o aparelho, e percebeu que o cabo estava desconectado da parede. Mesmo assim, o som continuava.
Três toques.
Quatro.
Cinco.
Luciana foi até ele devagar, o chão rangendo sob seus pés.
Atendeu.
— Alô?
A voz do outro lado era feminina. Doce. Familiar.
— Luciana... você não devia ter saído.
Ela sentiu o estômago revirar. — Quem tá falando?
— Você sabe.
Silêncio.
A voz continuou, mais baixa.
— Volta pra casa, Luciana. A casa tá esperando.
Luciana desligou o telefone com força e recuou até o meio da sala.
O coração disparado, as mãos tremendo.
O som da televisão voltou, sem imagem, só o chiado branco.
E, por trás dele, um ruído sutil, quase imperceptível: o som de alguém rindo.
Luciana tapou os ouvidos. Mas a risada vinha de dentro dela.
Ela saiu de casa pouco depois da meia-noite. O céu estava limpo, o vento frio. As ruas, desertas. Cada passo soava mais alto do que devia. Os postes piscavam, um por um, conforme ela passava.
Não sabia para onde ia — mas, no fundo, sabia. As pernas seguiam sozinhas.
E quando deu por si, estava de novo diante da casa.
Aquela casa.
O portão de ferro estava aberto. As janelas, escuras. Mas no andar de cima, a luz amarelada de sempre tremulava. Como uma vela viva.
Luciana respirou fundo. O ar cheirava a ferrugem e chuva antiga.
— Isso é um sonho — murmurou. — Só um sonho.
Entrou.
As tábuas de madeira velha da varanda estralavam quando encontravam seus pés descalços. A porta da frente da casa abriu sem que ela precisasse tocá-la, rangendo suas braçadeiras enferrujadas como um gemido de dor.
O portão se fechou atrás dela com um estalo que ecoou por todo o bairro.
O corredor interno era mais frio do que o ar lá fora.
As paredes descascadas, cobertas de marcas de mofo, pareciam respirar.
Cada passo deixava um som oco, úmido, como se o chão fosse de carne. Luciana subiu a escada.
O corrimão estava coberto de poeira, mas o centro, onde a mão tocava, estava limpo.
No andar de cima, a porta à esquerda estava entreaberta.
A luz vinha dali. De uma vela acesa no chão.
Ela empurrou a porta.
O quarto era pequeno, vazio, exceto por um espelho encostado na parede.
O mesmo espelho do sonho.
Luciana se aproximou.
A superfície refletia apenas o vazio, até que ela deu mais um passo.
O reflexo apareceu.
Mas o rosto não era dela.
Era o da mulher da ligação.
A pele pálida, os olhos fundos, o cabelo desgrenhado.
E o crachá no peito.
Luciana se aproximou, devagar.
O nome no crachá: Luciana Souza. O mesmo.
A mesma foto.
O mesmo sorriso.
Mas o rosto do reflexo estava morto.
— O que... o que é isso? — sussurrou.
O reflexo sorriu.
— Eu te avisei — disse a voz — mas você nunca acordou.
Luciana deu um passo para trás. — Acordar...?
O espelho começou a tremer.
Rachaduras finas surgiram, correndo como teias de aranha.
— Você ainda tá no ônibus, Luciana. — A voz vinha agora de todos os lados. — Você cochilou e nunca desceu.
Luciana balançou a cabeça. — Não, eu... eu voltei pra casa. Eu tô aqui!
O espelho se partiu com um estrondo.
E, atrás do vidro, ela viu a cena: o ônibus vazio, o corpo dela encostado na janela, imóvel.
Os olhos abertos.
Do banco de trás, o homem do capuz marrom a observava.
E sorria.
Luciana gritou.
Mas o som não saiu.
O chão do quarto se abriu, o ar ficou pesado.
A luz da vela apagou.
E o silêncio a engoliu.
No final do expediente, o motorista do ônibus linha 665 jurou ter visto uma passageira dormindo nos últimos bancos, perto da janela.
Tentou acordá-la, mas ela não respondeu.
O corpo foi levado para o hospital onde trabalhava.
Causa da morte: parada cardiorrespiratória durante o trajeto.
Quando recolheram seus pertences, havia um crachá preso no bolso do jaleco.
E, gravado no verso, com algo que parecia ferrugem:
“A casa me chamou.”
FIM




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